quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Gilberto Amendola - Os tatuados são Românticos, Exagerados e não Descamam.


Ela pediu um nome. Sempre entra alguém com essa vontade, quase todo dia, um inferno. Não adianta a cara feia, nem o preço alto por um rabisco sem capricho. O aviso “pense bem antes de se tatuar” é solenemente ignorado.

Em uma semana, ele escreveu no corpo alheio: João, Márcio, André, Lucas, Maria, Ana, Bia, Lívia, Bruno, Otávio, Carla, Josileine e Washington (esses últimos tatuados juntos, envolvidos por um coração).

Ele conhece as estatísticas, tem a experiência de anos de ofício, e sabe que pelo menos metade desses clientes irão retornar um dia. Daí, o D vira o corpo de um dragão; o B, a barriga de uma fada; o M, o símbolo do infinito; o C, uma estrela cadente; o W, a juba de um leão.

O amor vira qualquer coisa.

Ele pensa demais sobre o seu trabalho. Pensa sobre a ilusão de seus clientes, a certeza bruta de que o João, a Maria, a Carla e até o Washington serão pra sempre. Não são. Quase nunca são.
O amor, costuma raciocinar o tatuador, desse tipo que faz você escrever o nome de alguém no próprio corpo, é uma espécie de fervor religioso, uma adoração que faz você se inflar de certezas e de nunca, jamais, duvidar: “E se amanhã eu acordar diferente?” “E se amanhã o meu parceiro acordar diferente?”

No mundo dos tatuados nada se transforma. Lagarta não vira borboleta. Todo relacionamento é uma linha reta e, se eu te encontrei no meio deste caos, no meio dos escombros de uma vida inteira, logo, certeza, óbvio, você ficará comigo até que minha pele se desmanche e só reste os ossos (ou o pó).

Os tatuados são românticos. Exagerados. Descamam. Descascam. Querem trocar de pele, querem desenhos para cobrir velhos amores, querem laser, querem tratamentos, infravermelhos, querem pagar o preço de perder um amor. Tatuados são sofridos. São legais, mas sofridos.

Mas ela pediu um nome…
Ele quis inventar uma desculpa, quis passar mal de propósito, quis sair correndo:
- Quero tatuar “Beto”.
- Beto?
- Filho?
- Não.
- Namorado mesmo.
- Ah…


O tatuador não fugiu. A ruiva queria tatuar “Beto” no pulso esquerdo. Justamente, Beto. O apelido do próprio tatuador. Ele se deixou levar pelo sonho de tatuar o próprio apelido no pulso de alguém. Imaginou a história daquele rabisco na pele. O amor da ruiva. O sexo da ruiva. As tardes de domingo com a ruiva. Os dois sendo felizes pra sempre e ela dizendo: “Vou tatuar o seu nome”.
Ele caprichou. Como se aquela homenagem fosse pra ele.
Quase no fim do trabalho, ele percebeu que a Ruiva parecia emocionada:
- Tá doendo?
- Não. É que faz um mês.
- O quê?
- Acidente de carro.
- …
- Três anos de namoro. Mas um acidente estúpido…


O tatuador, o Beto, terminou o seu trabalho. Não cobrou da Ruiva. Ela insistiu. Ele não aceitou. Quando a ruiva saiu do estúdio de tatuagem, Beto foi ao banheiro. Lavou o rosto e sentiu um pouco de tontura. Tirou a camisa e se olhou no espelho. No peito, no reflexo do espelho, tatuado em letras minúsculas, era possível ler um nome: “Daniela”. Um nome escrito centenas ou milhares de vezes.

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